quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Moratória Psicossocial




Erik Erikson nasceu a 15 de Julho de 1902 em Frankfurt na Alemanha e morreu em Maio de 1994 nos Estados Unidos.

Foi um psiquiatra e relacionou-se com a família Freud, especialmente com Anna Freud, com quem iniciou a psicanálise e o gosto pelo estudo da infância.


Teoria Psicossocial do Desenvolvimento


A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson prediz que o crescimento psicológico ocorre através de estágios e fases, não ocorre ao acaso e depende da interacção da pessoa com o meio que a rodeia. Cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma vertente negativa. As duas vertentes são necessárias mas é essencial que se sobreponha a positiva. A forma como cada crise é ultrapassada ao longo de todos os estágios irá influenciar a capacidade para se resolverem conflitos inerentes à vida. Esta teoria concebe o desenvolvimento em 8 estágios, um dos quais se situa no período da adolescência.

Outro dos conceitos eriksonianos importantes é o de moratória psicossocial. Esta moratória é "um compasso de espera nos compromissos adultos". É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação dos papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna. Antecipa-se o futuro, exploram-se alternativas, experimenta-se, dá-se tempo…

As moratórias são caracterizadas pelas necessidades pessoais, mas também por exigências socioculturais e institucionais. "Cada sociedade e cada cultura institucionalizam uma certa moratória para a maioria dos seus jovens."



"As instituições sociais amparam o vigor e a distinção da identidade funcional nascente, oferecendo aos que ainda estão aprendendo e experimentando um certo status da aprendizagem, uma moratória caracterizada pela progressividade das obrigações definitivas e pela introdução de competições sancionadas (os exames, por exemplo), assim como por uma tolerância especial."

É claro que quanto mais têm evoluído as sociedades mais longo tem sido esse período de moratória, até se se ter tornado talvez longo demais (ultrapassando por vezes os 30 anos de idade), atingido que está o ponto de "pescadinha de rabo na boca" - quer dizer: se há um século essa moratória era quase inexistente para as crianças e jovens das classes trabalhadoras - a "adolescência" é uma "invenção" burguesa - e havia trabalho infantil e necessidade social e económica desse trabalho, também se dava a assumpção precoce de responsabilidades familiares; poderá dizer-se que a decadência e até a falência desse modelo acarretam, hoje, o excesso de duração do período de moratória "mascarando" através de longuíssimos períodos de formação por exemplo, dificuldades económicas e sociais como o desemprego já não apenas "juvenil", mas de jovens adultos que assim se vêem impedidos de se tornarem autónomos.





Especial importância ao período da adolescência, devido ao facto de ser a transição entre a infância e a idade adulta, em que se verificam acontecimentos relevantes para a personalidade "definitiva" (é claro que uma personalidade nunca está completamente "acabada").

Princípio Epigenético: Cada estágio contribui para a formação da personalidade total, sendo por isso todos importantes mesmo depois de se os atravessar. Como cada criança tem um ritmo cronológico específico, não se deve atribuir uma duração exacta a cada estágio.

O núcleo de cada estágio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estágio específico, nesse será então mais proeminente, mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo também raízes prévias nos anteriores.


A formação da identidade inicia-se nos primeiros quatro estágios, o senso desta negociado na adolescência evolui e influencia os últimos três.




Esta teoria enuncia:

8 estágios/idades de desenvolvimento:

- Cada um comporta uma vertente positiva e uma negativa, uma virtude e uma ritualização (uma forma culturalmente padronizada de experienciar uma vivência na interacção com os outros), esta porém, quando se torna perversa, transforma-se em ritualismo.

1ª Idade: Confiança versus Desconfiança
(aproximadamente dos 0-18 meses)

A criança vai aprender o que é ter ou não confiança, está muito relacionado com a relação entre o bebé e a mãe.

«A razão adequada de confiança e de desconfiança resulta na ascendência da esperança: “A esperança é a virtude inerente ao estado de estar vivo mais primitiva e a mais indispensável”» (Erikson, Apud., Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000, p.170).

À medida que o bebé vai adquirindo experiência, ele aprende que as esperanças que um dia eram prioridades, deixam de o ser, sendo superadas por outras de um nível mais elevado.

Ritualização da divindade, nas interacções pessoais e culturalmente ritualizadas, entre a mãe e o bebe.

A falta do reconhecimento pode trazer alienação na personalidade do bebé, um senso de abandono e separação.

Forma pervertida do ritual da divindade materna: idolismo (na vida adulta), em que a pessoa idolatra um herói.



2ª Idade: Autonomia versus Vergonha e Dúvida
(aproximadamente dos 18 meses-3anos)

Vertente Positiva: Autonomia, necessidade de auto-controle e de aceitação do controle por parte das outras pessoas.

Vontade: responsável pela aceitação progressiva do que é permitido e necessário, os elementos desta são progressivamente aumentados pelas experiências ao nível da consciência, manipulação, verbalização e locomoção.

Vertente Negativa: Vergonha e Dúvida quando perde o senso de auto-controle, os pais contribuem neste processo ao usarem a vergonha na repressão da teimosia.

Ritualização: Judicial criança julga-se a si e aos outros, diferenciando o certo do errado.

Forma-se:

A base ontogenética da alienação humana, a espécie dividida, que Erikson designou como pseudo-espécie, a origem do preconceito humano.

Ritualismo: Legalismo (a punição vence a compaixão)


3ªIdade: Iniciativa versus Culpa
(aproximadamente dos 3-6 anos)

Vertente Positiva: Iniciativa, crescente capacidade de destreza e responsabilidade

Virtude: Propósito

«O propósito, então, é a coragem de imaginar e buscar metas valorizadas não - inibidas pela derrota das fantasias infantis, pela culpa e pelo medo cortante da punição» (Erikson, Apud Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000: p.172)

Vertente Negativa: Culpa, busca demasiado entusiasta das metas

Ritualização: Dramática, em que a criança participa activamente de dramatizações; usa figurinos, imitando personalidades adultas.

Ritualismo: Personificação, por toda a vida. O adulto desempenha papéis a fim de apresentar uma imagem que não representa a sua verdadeira personalidade.


4ª Idade: Diligência versus Inferioridade
(aproximadamente dos 6-12 anos)

Vertente positiva: Diligência, dedicação à educação formal.

Virtude: Competência, obtida quando nos dedicamos ao trabalho e concluímos tarefas, o que nos traz habilidade.

«A competência, então, é o livre exercício da destreza e da inteligência na conclusão de tarefas, não-prejudicado pela inferioridade infantil»(Erikson, Apud., Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000: p.172)

Vertente Negativa: Inferioridade, aplicação de responsabilidades, para evitar esses sentimentos.

Ritualização: Formal, a criança aprende a ter um desempenho metódico, que proporcionam à criança um senso global de qualidade que inclui habilidade e perfeição.

Ritualismo: Formalismo, consiste na repetição de formalidades sem significado e em rituais vazios.

5ª Idade: Identidade Versus Confusão/Difusão

Esta 5ª idade localiza-se usual e aproximadamente dos 12 aos 18/20 anos, ou seja, na adolescência, puberdade, precisamente na idade em que na vertente positiva, o adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo.

Tendo em conta que as fases anteriores deixam marcas que vão influenciar a forma como se vivência esta crise, o adolescente vai perceber-se numa perspectiva histórica integrando elementos identitários adquiridos nas idades anteriores.

«O agente interno activador na formação da identidade é o Ego, em seus aspectos conscientes e inconscientes». O qual neste estágio tem a peculiaridade de apurar e inteirar talentos, aptidões e habilidades na identificação com pessoas semelhantes a nós e na acomodação ao ambiente social»

O adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo. Dá-se a construção da identidade, o sentimento da identidade, o qual é conforme Erikson «[…] o sentimento de ser o mesmo ao longo da vida, atravessando mudanças pessoais e ocorrências diversas».

Moratória psicossocialEsta moratória é um compasso de espera nos compromissos adultos. É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação de papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna»; A sociedade permite ao adolescente espaço de experimentação, no qual ele explora e ensaia vários estatutos e papéis sociais».

Identidade Difusa: uma noção do eu incoerente, desarticulada e incompleta

Identidade bloqueada: não permissão (existe um bloqueio) do período normal de moratória por questões sociais, familiares e/ou pessoais.

Identidade negativa: «O adolescente selecciona identidades que são indesejáveis para a família e sua comunidade».

Nesta idade emergem um conjunto particular de valores a que Erikson denominou por fidelidade: «A fidelidade é a capacidade de manter lealdades livremente empenhadas, apesar das inevitáveis contradições dos sistemas de valor»; fidelidade é assim a grande virtude adquirida nesta idade e pode-se traduzir na fidelidade aos investimentos, ideais e compromissos.

Ritualização: Ideologia -> solidariedade de convicção que incorpora ritualizações de estágios de vida prévios em um conjunto coerente de ideias e ideais.

Perversão da ritualização: Totalismo -> preocupação fanática e exclusiva com o que parece ser inquestionavelmente certo ou ideal.


6ª Idade: Intimidade Versus Isolamento

Pode-se afirmar que esta idade ocorre dos 18/20 aos 30 e tal anos, e na qual o jovem almeja estabelecer relações de intimidade com os outros e adquirir a capacidade necessária para o amor íntimo, ainda que para isso tenham de fazer sacrifícios. (o amor é a virtude dominante do universo)

Pela primeira vez o indivíduo poder desfrutar de uma genitalidade sexual verdadeira, mutuamente com o alvo do seu amor.

Os indivíduos encaram a tarefa desenvolvimental de construir relações com os outros numa comunicação profunda expressa no amor e nas relações de amizade.

Neste estágio relativamente ao Ego pode-se afirmar que a força deste depende do parceiro com que se está preparado para compartilhar situações tão peculiares como a criação de um filho, a título exemplificativo.

A vertente negativa traduz-se no isolamento de quem não consegue partilhar afectos com intimidade nas relações privilegiadas. «O perigo do estágio da intimidade é o isolamento, a evitação dos relacionamentos, quando a pessoa não está disposta a comprometer-se com a intimidade»

«A ritualização correspondente desse estágio é a associativa, isto é, um compartilhar conjunto de trabalho, amizade e amor. O ritualismo correspondente, o elitismo, expressa-se pela formação de grupos exclusivos que são uma forma de narcisismo comunal».


7ª Idade: Generatividade versus Estagnação

A mais longa das idades psicossociais, vai normalmente dos 30 aos 60 anos e consiste no conflito entre produzir, educar, cuidar do futuro e preocupar-se unicamente com as suas necessidades e interesses.

A vertente positiva é a Generatividade que traduz o desejo de criar novas vidas, obras de arte, ideias, objectos, educar, ensinar, ou seja, o desejo de realizar algo que nos sobreviva e que contribua para o bem-estar das gerações futuras. O indivíduo generativo = gerador, criativo) projecta-se no futuro não se preocupando somente consigo ou com os seus.

A virtude que se desenvolve neste estágio é o Cuidado, que se expressa pela preocupação com os outros, o querer cuidar das pessoas e compartilhar com elas o seu conhecimento e experiências.


O fracasso neste estágio, conduz à Estagnação, à incapacidade de projecção no futuro, isto acontece porque, o indivíduo se torna egocêntrico, fecha-se nas suas próprias ambições dando pouco ou nada de si aos outros.

A ritualização é denominada por Geracional e consiste na ritualização da maternidade/ paternidade, produção, ensino e papeis em que o adulto age como transmissor de valores para os mais novos.

Ritualismo perverso: Autoritarismo é a usurpação da autoridade incompatível com o cuidado.


8ª Idade: Integridade versus Desespero

O último estágio que acontece normalmente a partir dos 60 anos, consiste numa retrospectiva da vida ao aproximarmo-nos do seu fim, em que revemos escolhas, opções, realizações e fracassos.

A vertente positiva, é a Integridade que advém do sentimento de que a vida teve sentido, há satisfação por termos vivido como vivemos, reconciliamo-nos com o sofrimento e a dor e aceitamos a existência como algo valioso.

A Sabedoria é a virtude resultante do encontro da integridade com o desespero, e consiste na consciencialização das nossas potencialidades dadas as circunstâncias, e a constatação de que não vivemos em vão. Segundo Erikson a sabedoria é «[...] a preocupação desprendida com a vida em si, diante da morte em si».

O Desespero é a avaliação negativa do que fizemos, e a tomada de consciência de que já não se pode recomeçar, que desperdiçamos o nosso tempo e que quase nada de valioso criamos, instalando-se a angústia e o medo da morte.


A ritualização presente neste último estágio pode ser chamada de Integral, que se reflecte na sabedoria das idades.

Ritualismo perverso: Sapientismo - “a tola pretensão de ser sábio”

Ego:

Ego Criativo: soluções criativas para os problemas que surgem em cada estágio. Pois quando se sente ameaçado reage com um esforço renovado e não desiste, sendo os poderes de recuperação deste inerentes ao ego jovem. Opera independente do id e do superego.


Qualidades: confiança e esperança, autonomia e vontade, diligência e competência, identidade e fidelidade, intimidade e amor, generatividade e cuidado, e integridade. Por serem valores universais, e os quais reúnem três esferas reciprocamente essenciais, o ciclo de vida do indivíduo, a estrutura social básica e a sequência de gerações.

Nova identidade de Ego: pois as qualidades que são a este atribuídas ultrapassam a concepção psicanalítica prévia.




Críticas e Controvérsias


Um dos métodos favoritos de Erikson para testar a sua teoria era o estudo biológico de cada caso, usando homens famosos como Martin Luther e Mahatama Gandhi.


Críticos à sua teoria dizem que esta é mais aplicável a meninos do que a meninas.





ERIKSON versus FREUD

Existem algumas diferenças entre a teoria de Erikson e a de Freud, entre elas destacam-se:

O facto de Erikson ter uma concepção mais englobante do desenvolvimento, pois, a sua teoria abrange todo o ciclo de vida e o desenvolvimento tem em conta o meio sociocultural, grupos e comunidades, ou seja, o meio não é entendido somente pela família, tem em conta a construção da identidade global e não somente psicossexual, embora haja o reconhecimento da importância dos primeiros anos, o período marcante da teoria psicossocial do desenvolvimento é a adolescência.


Erikson ao contrário de Freud tem na sua base teórica uma psicologia do Ego e não do Id. O Ego segundo Erikson está envolvido num processo de adaptação, de melhor enquadramento da pessoa no mundo, existe já à nascença dotado da sua própria fonte de energia e separado do Id;


Não podemos esquecer que apesar das diferenças ambos procuraram definir a forma como o ser humano pode autorealizar-se e lidar com os conflitos psíquicos.

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