terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O que é o "Associativismo"?




Segundo o “Guia Para o Associativismo”: “O Associativismo é a expressão organizada da sociedade, apelando à responsabilização e intervenção dos cidadãos em várias esferas da vida social e constituiu um importante meio de exercer a cidadania”.
A importância e o valor do associativismo decorrem do facto de constituir uma criação e realização viva e independente; uma expressão da acção social das populações nas mais variadas áreas.
Para José de Almeida Cesário, o associativismo é expressão e exercício de liberdade e exemplo de vida democrática. É uma escola de vida colectiva, de cooperação, de solidariedade, de generosidade, de independência de humanismo e cidadania. Concilia valor colectivo e individual. Pelo que, defender, reforçar, apoiar e promover o desenvolvimento do movimento associativo é defender e reforçar a democracia e a participação dos cidadãos na vida social.
O Movimento Associativo é um produto social. Transforma-se com a evolução social, acompanha e participa activamente nessa transformação. Realiza-se tanto mais profundamente quanto mais tenha claros os objectivos da sua intervenção, o seu projecto próprio e o projecto de sociedade para que está orientado o conteúdo fundamental da sua acção.
O associativismo é uma forma de união de povos e/ou comunidades que procuram, de forma económica desinteressada, alcançar um objectivo, com uma personalidade jurídica própria, conferida, no nosso caso, pela lei portuguesa.
Tal como a Constituição da República diz, no seu artigo n.º 20, “toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacífica”.
Então, podemos afirmar que o associativismo, enquanto movimento de união e desinteresse económico, é um acto de liberdade e de opção para qualquer pessoa. Esta pode, de livre vontade, formar a sua própria associação.
“Uma associação forma-se por decisão voluntária (...) no sentido dos objectivos que lhes satisfaçam as necessidades (...) ” (Elo Associativo nº. 17, 2001:16)
Na sociedade em que vivemos torna-se cada vez mais comum ouvir dizer que algumas associações são como que empresas, uma vez que a sua actividade exige uma gestão ao nível da empresarial.
Esta é uma das grandes confusões de muitos associativistas, dirigentes ou não. Uma Associação sem fins lucrativos não é uma empresa, senão vejamos:
- Uma empresa tem por objectivo produzir e/ou vender um produto, fazer lucro e distribuí-lo; Uma associação tem como fim prestar um serviço, resolver problemas sociais, desenvolver potencialidades, valorizar os seus associados, reinvestir socialmente eventuais receitas e proveitos realizados em prol de todos os associados e da população;

- Para uma empresa o que conta, em termos de representatividade, é a força económica e o investimento do sócio; Na associação cada associado tem um voto.
- Uma empresa é constituída e permanece enquanto desenvolve uma actividade economicamente rentável; Uma associação é uma emanação da vontade popular que traz benefícios sociais aos seus associados, vive e renasce permanentemente pela vontade de sucessivas gerações de associados anónimos, cuja força motora é a resposta a problemas locais, à melhoria da qualidade de vida, a participação popular, o exercício profundo da democracia, etc.
- As empresas não têm acesso ao estatuto de utilidade pública; As associações têm acesso ao estatuto de utilidade pública que assegura um conjunto de benefícios fiscais às associações.
Trata-se de um movimento no qual as pessoas se agrupam em torno de interesses comuns, constituindo associações, entidades com personalidade jurídica e com objectivos de entreajuda e cooperação. (Guia para o Associativismo, 2001:5).
Os Estatutos fixam os grandes objectivos, enquanto os Regulamentos assinalam regras de comportamento dos associados entre si e de gestão para melhor se atingirem aqueles objectivos.
Toda a gestão é finalmente orientada para a organização de actividades que conduzem à satisfação das necessidades expressas pelos associados desde a fundação da associação, diversificadas em seguida e ampliadas à medida que os anos passam, a sociedade evolui e com ela as mentalidades, as técnicas, os meios e a cultura. (Elo Associativo, n.º 17, 2001: 16)
Enquanto forma privilegiada de intervenção da sociedade civil, o Associativismo, segundo o Guia para o Associativismo (2001:5), rege-se por três princípios:
“De Liberdade – A adesão a uma associação é livre, tal como é livre a saída do movimento associativo”.
“De Democracia – O funcionamento de uma associação baseia-se na equidade entre os seus membros, traduzida na expressão «um associado, um voto» ”.
“De Solidariedade – As associações resultam sempre de uma congregação de esforços, em primeiro lugar dos fundadores e depois de todos os associados”.
Se por um lado a origem de uma associação acaba por ser comum a todas, ou seja, a congregação de esforços em torno de um interesse comum, por outro, o seu fim, o seu objectivo, já pode ser o mais diversificado, levando a que existam as mais variadas associações (Culturais, Recreativas, Desportivas, Defesa do Ambiente e Património, Desenvolvimento Local, Moradores, Estudantes, Pais, Profissionais...).
Paulo Pinho

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Globalização - raízes históricas





As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,

Camões, "Os Lusíadas", Canto I

A globalização, enquanto fenómeno, não é uma realidade recente. De facto, os grupos humanos desde os tempos mais remotos procuraram alargar o seu mundo circundante. Foi assim que, desde África, berço da espécie, o homem foi aumentando o seu horizonte perceptivo, povoando a terra e estendendo-se pelo continente europeu, asiático, americano e australiano. Foi, em diáspora, à procura da terra prometida, da terra mais favorável à sua satisfação na luta pela existência que determinados povos, conquistando outros, construíram grandes impérios. O Mundo Antigo conheceu, entre outros, o egípcio, o sumério, o fenício, o grego, o persa e o romano. Este último, tendo o Mar Mediterrâneo como meio de comunicação privilegiado, com as suas galés uniu os pontos mais longínquos do seu império.
Nos séculos XV e XVI portugueses e espanhóis, compreendendo igualmente a importância do mar enquanto meio de união, lograram, com as suas empresas ultramarinas, unir os cinco continentes. E com essa união permitiram o primeiro grande momento histórico da humanidade: a transformação do mundo numa pequena «aldeia global». Eis, aqui, a importância que comummente é atribuída a personagens históricas como Vasco da Gama, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães e Pedro Álvares Cabral.
Num mundo assim globalizado pela expansão ultramarina, a revolução industrial (séc. XVIII) e a revolução tecnológica (séc. XX), permitiram acelerar aquele fenómeno com o encurtamento temporal das distâncias que medeiam os cinco continentes. Foi assim que velha caravela portuguesa deu origem ao barco a vapor e ao avião, e as cartas ao telegrama e ao correio electrónico.
Com os novos meios de transporte e com as novas tecnologias de informação e comunicação, os povos conseguiram estreitar cada vez mais as suas relações, de tal forma que a distância espacial é quase totalmente minimizada pelo encurtamento temporal. Tal fenómeno, presente culturalmente no cinema e no teatro, socialmente na televisão, nos jornais e nas revistas, e tecnologicamente no computador e na Internet, trouxeram-nos imensas vantagens. Mas também muitas desvantagens.
Certamente que no retrocesso às sociedades fechadas das primeiras décadas do séc. XX poder-se-iam evitar muitas das desvantagens da globalização, mas essa não seria uma verdadeira solução para os problemas do terrorismo, do fundamentalismo religioso, das redes de pedofilia ou tantos outros anátemas que mancham a sociedade actual. E não seria, porque, ainda que fosse possível esse retrocesso, os problemas continuariam a existir, ainda que confinados a uma escala nacional. Por isso, só no futuro reside a solução. Esse futuro deve ser construído no compromisso de todos os agentes implicados, cidadãos e políticos, na defesa da paz, do respeito e da tolerância mundial.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Lemas




Dois exemplos de lemas de clubes famosos apelando à União.

"A União Faz a Força" (Associativismo e Sociedade Civil))



Portugal é, ainda hoje, um país muito rico em matéria de movimento associativo. Muitas das nossas principais instituições são, ou começaram por ser, associações – desde clubes desportivos até bancos (os “montepios”) e seguradoras (as “mutualidades”) tiveram e têm, no nosso país, um importante papel social, cultural, mas também económico e financeiro.
As Sociedades de Cultura e Recreio, os Clubes Desportivos, as Cooperativas de Consumo, as Associações de Bombeiros Voluntários, as Misericórdias, as Cooperativas de Educação (Regular ou Especial) e os próprios Sindicatos e Associações de Empresários desempenharam e ainda desempenham, um importante papel no desenvolvimento e na melhoria das condições de vida da população.
No entanto, estão a mudar a situação, as condições de existência e até a razão de ser dos movimentos associativos que decorre da própria dinâmica da sociedade civil, isto é dos movimentos de cidadãos com raízes no tecido social e independentes do Estado (se bem que muitos acabem por ser por este apoiados).
Se, desde meados do século XIX até ao último quartel do século XX, o movimento associativo tendia a substituir o Estado nas funções que este não conseguia cumprir; hoje os motivos de associação entre cidadãos são muito mais específicos e concretos nos seus objectivos e finalidades, determinados por interesses económicos, sociais e culturais comuns ou afins (utentes de serviços, pacientes ou familiares de pacientes de afecções similares, praticantes de modalidades e até de “estilos de vida” - como “hobbies” e tipos de orientação alimentar e mesmo sexual).
Muito mudou na vida das pessoas para que isto acontecesse e aquela sociedade onde o convívio e o bailarico aconteciam nas associações populares chegou - por intermédio de um conjunto de fatores configurando processos sociais de mudança: económica, social, política e cultural - de certo modo, ao fim. Pode ser que com a actual "crise" a tornar-se duradoura, haja algum ressurgimento deste fenómeno, porque a mobilidade das pessoas poderá ficar bastante limitada, dado o aumento do preço dos combustíveis e dos transportes e a escassez de dinheiro poderá estimular a imaginação para que se volte ao convívio de proximidade. Os motivos de debate vão também abundar. Aliás, já se nota na sociedade portuguesa e quero crer que um pouco por todo o mundo, uma dinâmica de comunicação espontânea que não se registava há duas ou três décadas. Enfim, não sendo por bons motivos, são as virtudes próprias de algum infortúnio.


António José Ferreira

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Moratória Psicossocial




Erik Erikson nasceu a 15 de Julho de 1902 em Frankfurt na Alemanha e morreu em Maio de 1994 nos Estados Unidos.

Foi um psiquiatra e relacionou-se com a família Freud, especialmente com Anna Freud, com quem iniciou a psicanálise e o gosto pelo estudo da infância.


Teoria Psicossocial do Desenvolvimento


A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson prediz que o crescimento psicológico ocorre através de estágios e fases, não ocorre ao acaso e depende da interacção da pessoa com o meio que a rodeia. Cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma vertente negativa. As duas vertentes são necessárias mas é essencial que se sobreponha a positiva. A forma como cada crise é ultrapassada ao longo de todos os estágios irá influenciar a capacidade para se resolverem conflitos inerentes à vida. Esta teoria concebe o desenvolvimento em 8 estágios, um dos quais se situa no período da adolescência.

Outro dos conceitos eriksonianos importantes é o de moratória psicossocial. Esta moratória é "um compasso de espera nos compromissos adultos". É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação dos papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna. Antecipa-se o futuro, exploram-se alternativas, experimenta-se, dá-se tempo…

As moratórias são caracterizadas pelas necessidades pessoais, mas também por exigências socioculturais e institucionais. "Cada sociedade e cada cultura institucionalizam uma certa moratória para a maioria dos seus jovens."



"As instituições sociais amparam o vigor e a distinção da identidade funcional nascente, oferecendo aos que ainda estão aprendendo e experimentando um certo status da aprendizagem, uma moratória caracterizada pela progressividade das obrigações definitivas e pela introdução de competições sancionadas (os exames, por exemplo), assim como por uma tolerância especial."

É claro que quanto mais têm evoluído as sociedades mais longo tem sido esse período de moratória, até se se ter tornado talvez longo demais (ultrapassando por vezes os 30 anos de idade), atingido que está o ponto de "pescadinha de rabo na boca" - quer dizer: se há um século essa moratória era quase inexistente para as crianças e jovens das classes trabalhadoras - a "adolescência" é uma "invenção" burguesa - e havia trabalho infantil e necessidade social e económica desse trabalho, também se dava a assumpção precoce de responsabilidades familiares; poderá dizer-se que a decadência e até a falência desse modelo acarretam, hoje, o excesso de duração do período de moratória "mascarando" através de longuíssimos períodos de formação por exemplo, dificuldades económicas e sociais como o desemprego já não apenas "juvenil", mas de jovens adultos que assim se vêem impedidos de se tornarem autónomos.





Especial importância ao período da adolescência, devido ao facto de ser a transição entre a infância e a idade adulta, em que se verificam acontecimentos relevantes para a personalidade "definitiva" (é claro que uma personalidade nunca está completamente "acabada").

Princípio Epigenético: Cada estágio contribui para a formação da personalidade total, sendo por isso todos importantes mesmo depois de se os atravessar. Como cada criança tem um ritmo cronológico específico, não se deve atribuir uma duração exacta a cada estágio.

O núcleo de cada estágio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estágio específico, nesse será então mais proeminente, mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo também raízes prévias nos anteriores.


A formação da identidade inicia-se nos primeiros quatro estágios, o senso desta negociado na adolescência evolui e influencia os últimos três.




Esta teoria enuncia:

8 estágios/idades de desenvolvimento:

- Cada um comporta uma vertente positiva e uma negativa, uma virtude e uma ritualização (uma forma culturalmente padronizada de experienciar uma vivência na interacção com os outros), esta porém, quando se torna perversa, transforma-se em ritualismo.

1ª Idade: Confiança versus Desconfiança
(aproximadamente dos 0-18 meses)

A criança vai aprender o que é ter ou não confiança, está muito relacionado com a relação entre o bebé e a mãe.

«A razão adequada de confiança e de desconfiança resulta na ascendência da esperança: “A esperança é a virtude inerente ao estado de estar vivo mais primitiva e a mais indispensável”» (Erikson, Apud., Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000, p.170).

À medida que o bebé vai adquirindo experiência, ele aprende que as esperanças que um dia eram prioridades, deixam de o ser, sendo superadas por outras de um nível mais elevado.

Ritualização da divindade, nas interacções pessoais e culturalmente ritualizadas, entre a mãe e o bebe.

A falta do reconhecimento pode trazer alienação na personalidade do bebé, um senso de abandono e separação.

Forma pervertida do ritual da divindade materna: idolismo (na vida adulta), em que a pessoa idolatra um herói.



2ª Idade: Autonomia versus Vergonha e Dúvida
(aproximadamente dos 18 meses-3anos)

Vertente Positiva: Autonomia, necessidade de auto-controle e de aceitação do controle por parte das outras pessoas.

Vontade: responsável pela aceitação progressiva do que é permitido e necessário, os elementos desta são progressivamente aumentados pelas experiências ao nível da consciência, manipulação, verbalização e locomoção.

Vertente Negativa: Vergonha e Dúvida quando perde o senso de auto-controle, os pais contribuem neste processo ao usarem a vergonha na repressão da teimosia.

Ritualização: Judicial criança julga-se a si e aos outros, diferenciando o certo do errado.

Forma-se:

A base ontogenética da alienação humana, a espécie dividida, que Erikson designou como pseudo-espécie, a origem do preconceito humano.

Ritualismo: Legalismo (a punição vence a compaixão)


3ªIdade: Iniciativa versus Culpa
(aproximadamente dos 3-6 anos)

Vertente Positiva: Iniciativa, crescente capacidade de destreza e responsabilidade

Virtude: Propósito

«O propósito, então, é a coragem de imaginar e buscar metas valorizadas não - inibidas pela derrota das fantasias infantis, pela culpa e pelo medo cortante da punição» (Erikson, Apud Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000: p.172)

Vertente Negativa: Culpa, busca demasiado entusiasta das metas

Ritualização: Dramática, em que a criança participa activamente de dramatizações; usa figurinos, imitando personalidades adultas.

Ritualismo: Personificação, por toda a vida. O adulto desempenha papéis a fim de apresentar uma imagem que não representa a sua verdadeira personalidade.


4ª Idade: Diligência versus Inferioridade
(aproximadamente dos 6-12 anos)

Vertente positiva: Diligência, dedicação à educação formal.

Virtude: Competência, obtida quando nos dedicamos ao trabalho e concluímos tarefas, o que nos traz habilidade.

«A competência, então, é o livre exercício da destreza e da inteligência na conclusão de tarefas, não-prejudicado pela inferioridade infantil»(Erikson, Apud., Calvin S. Hall; Gardner Lindzey; John B. Campbell, 2000: p.172)

Vertente Negativa: Inferioridade, aplicação de responsabilidades, para evitar esses sentimentos.

Ritualização: Formal, a criança aprende a ter um desempenho metódico, que proporcionam à criança um senso global de qualidade que inclui habilidade e perfeição.

Ritualismo: Formalismo, consiste na repetição de formalidades sem significado e em rituais vazios.

5ª Idade: Identidade Versus Confusão/Difusão

Esta 5ª idade localiza-se usual e aproximadamente dos 12 aos 18/20 anos, ou seja, na adolescência, puberdade, precisamente na idade em que na vertente positiva, o adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo.

Tendo em conta que as fases anteriores deixam marcas que vão influenciar a forma como se vivência esta crise, o adolescente vai perceber-se numa perspectiva histórica integrando elementos identitários adquiridos nas idades anteriores.

«O agente interno activador na formação da identidade é o Ego, em seus aspectos conscientes e inconscientes». O qual neste estágio tem a peculiaridade de apurar e inteirar talentos, aptidões e habilidades na identificação com pessoas semelhantes a nós e na acomodação ao ambiente social»

O adolescente vai adquirir uma identidade psicossocial, isto é, compreende a sua singularidade, o seu papel no mundo. Dá-se a construção da identidade, o sentimento da identidade, o qual é conforme Erikson «[…] o sentimento de ser o mesmo ao longo da vida, atravessando mudanças pessoais e ocorrências diversas».

Moratória psicossocialEsta moratória é um compasso de espera nos compromissos adultos. É um período de pausa necessária a muitos jovens, de procura de alternativas e de experimentação de papéis, que vai permitir um trabalho de elaboração interna»; A sociedade permite ao adolescente espaço de experimentação, no qual ele explora e ensaia vários estatutos e papéis sociais».

Identidade Difusa: uma noção do eu incoerente, desarticulada e incompleta

Identidade bloqueada: não permissão (existe um bloqueio) do período normal de moratória por questões sociais, familiares e/ou pessoais.

Identidade negativa: «O adolescente selecciona identidades que são indesejáveis para a família e sua comunidade».

Nesta idade emergem um conjunto particular de valores a que Erikson denominou por fidelidade: «A fidelidade é a capacidade de manter lealdades livremente empenhadas, apesar das inevitáveis contradições dos sistemas de valor»; fidelidade é assim a grande virtude adquirida nesta idade e pode-se traduzir na fidelidade aos investimentos, ideais e compromissos.

Ritualização: Ideologia -> solidariedade de convicção que incorpora ritualizações de estágios de vida prévios em um conjunto coerente de ideias e ideais.

Perversão da ritualização: Totalismo -> preocupação fanática e exclusiva com o que parece ser inquestionavelmente certo ou ideal.


6ª Idade: Intimidade Versus Isolamento

Pode-se afirmar que esta idade ocorre dos 18/20 aos 30 e tal anos, e na qual o jovem almeja estabelecer relações de intimidade com os outros e adquirir a capacidade necessária para o amor íntimo, ainda que para isso tenham de fazer sacrifícios. (o amor é a virtude dominante do universo)

Pela primeira vez o indivíduo poder desfrutar de uma genitalidade sexual verdadeira, mutuamente com o alvo do seu amor.

Os indivíduos encaram a tarefa desenvolvimental de construir relações com os outros numa comunicação profunda expressa no amor e nas relações de amizade.

Neste estágio relativamente ao Ego pode-se afirmar que a força deste depende do parceiro com que se está preparado para compartilhar situações tão peculiares como a criação de um filho, a título exemplificativo.

A vertente negativa traduz-se no isolamento de quem não consegue partilhar afectos com intimidade nas relações privilegiadas. «O perigo do estágio da intimidade é o isolamento, a evitação dos relacionamentos, quando a pessoa não está disposta a comprometer-se com a intimidade»

«A ritualização correspondente desse estágio é a associativa, isto é, um compartilhar conjunto de trabalho, amizade e amor. O ritualismo correspondente, o elitismo, expressa-se pela formação de grupos exclusivos que são uma forma de narcisismo comunal».


7ª Idade: Generatividade versus Estagnação

A mais longa das idades psicossociais, vai normalmente dos 30 aos 60 anos e consiste no conflito entre produzir, educar, cuidar do futuro e preocupar-se unicamente com as suas necessidades e interesses.

A vertente positiva é a Generatividade que traduz o desejo de criar novas vidas, obras de arte, ideias, objectos, educar, ensinar, ou seja, o desejo de realizar algo que nos sobreviva e que contribua para o bem-estar das gerações futuras. O indivíduo generativo = gerador, criativo) projecta-se no futuro não se preocupando somente consigo ou com os seus.

A virtude que se desenvolve neste estágio é o Cuidado, que se expressa pela preocupação com os outros, o querer cuidar das pessoas e compartilhar com elas o seu conhecimento e experiências.


O fracasso neste estágio, conduz à Estagnação, à incapacidade de projecção no futuro, isto acontece porque, o indivíduo se torna egocêntrico, fecha-se nas suas próprias ambições dando pouco ou nada de si aos outros.

A ritualização é denominada por Geracional e consiste na ritualização da maternidade/ paternidade, produção, ensino e papeis em que o adulto age como transmissor de valores para os mais novos.

Ritualismo perverso: Autoritarismo é a usurpação da autoridade incompatível com o cuidado.


8ª Idade: Integridade versus Desespero

O último estágio que acontece normalmente a partir dos 60 anos, consiste numa retrospectiva da vida ao aproximarmo-nos do seu fim, em que revemos escolhas, opções, realizações e fracassos.

A vertente positiva, é a Integridade que advém do sentimento de que a vida teve sentido, há satisfação por termos vivido como vivemos, reconciliamo-nos com o sofrimento e a dor e aceitamos a existência como algo valioso.

A Sabedoria é a virtude resultante do encontro da integridade com o desespero, e consiste na consciencialização das nossas potencialidades dadas as circunstâncias, e a constatação de que não vivemos em vão. Segundo Erikson a sabedoria é «[...] a preocupação desprendida com a vida em si, diante da morte em si».

O Desespero é a avaliação negativa do que fizemos, e a tomada de consciência de que já não se pode recomeçar, que desperdiçamos o nosso tempo e que quase nada de valioso criamos, instalando-se a angústia e o medo da morte.


A ritualização presente neste último estágio pode ser chamada de Integral, que se reflecte na sabedoria das idades.

Ritualismo perverso: Sapientismo - “a tola pretensão de ser sábio”

Ego:

Ego Criativo: soluções criativas para os problemas que surgem em cada estágio. Pois quando se sente ameaçado reage com um esforço renovado e não desiste, sendo os poderes de recuperação deste inerentes ao ego jovem. Opera independente do id e do superego.


Qualidades: confiança e esperança, autonomia e vontade, diligência e competência, identidade e fidelidade, intimidade e amor, generatividade e cuidado, e integridade. Por serem valores universais, e os quais reúnem três esferas reciprocamente essenciais, o ciclo de vida do indivíduo, a estrutura social básica e a sequência de gerações.

Nova identidade de Ego: pois as qualidades que são a este atribuídas ultrapassam a concepção psicanalítica prévia.




Críticas e Controvérsias


Um dos métodos favoritos de Erikson para testar a sua teoria era o estudo biológico de cada caso, usando homens famosos como Martin Luther e Mahatama Gandhi.


Críticos à sua teoria dizem que esta é mais aplicável a meninos do que a meninas.





ERIKSON versus FREUD

Existem algumas diferenças entre a teoria de Erikson e a de Freud, entre elas destacam-se:

O facto de Erikson ter uma concepção mais englobante do desenvolvimento, pois, a sua teoria abrange todo o ciclo de vida e o desenvolvimento tem em conta o meio sociocultural, grupos e comunidades, ou seja, o meio não é entendido somente pela família, tem em conta a construção da identidade global e não somente psicossexual, embora haja o reconhecimento da importância dos primeiros anos, o período marcante da teoria psicossocial do desenvolvimento é a adolescência.


Erikson ao contrário de Freud tem na sua base teórica uma psicologia do Ego e não do Id. O Ego segundo Erikson está envolvido num processo de adaptação, de melhor enquadramento da pessoa no mundo, existe já à nascença dotado da sua própria fonte de energia e separado do Id;


Não podemos esquecer que apesar das diferenças ambos procuraram definir a forma como o ser humano pode autorealizar-se e lidar com os conflitos psíquicos.

domingo, 27 de novembro de 2011

Teoria do Desenvolvimento Moral (Kohlberg)



A teoria do desenvolvimento moral mais conhecida é a de Kohlberg. Esta teoria, assim como a de Piaget, é universalista. Não afirma a universalidade das normas, mas a das estruturas que permitem a aplicação das normas em contextos precisos e proporcionam critérios para o juízo moral. Acredita que através de um processo maturacional e interativo, todos os seres humanos têm a capacidade de chegar à plena competência moral, medida pelo paradigma da moralidade autónoma, ou, como prefere Kohlberg, pelo da moralidade pós-convencional.
Os seis estágios de Kohlberg podem ser, generalizadamente, agrupados em três níveis de dois estágios cada: pré-convencional, convencional e pós-convencional.
Seguindo as exigências construtivistas de Piaget de um modelo de estágios, como exposto na sua teoria do desenvolvimento cognitivo, é extremamente raro regredir em estágios – perder o uso de capacidades adquiridas em estágios mais elevados. Não se podem saltar estágios, cada um fornece uma nova e necessária perspectiva, mais abrangente e diferenciada dos seus predecessores, mas articulada com eles. Os estágios não avançam em "bloco", podendo a pessoa estar em determinado estágio numa área e noutro estágio em outra área. A sua teoria é dinâmica, e não apenas estática. Potencialmente, todo o indivíduo é capaz de transcender os valores da cultura em que foi socializado, ele não os incorpora apenas passivamente. Com isso, a própria cultura pode ser modificada.

Podemos esquematizar a teoria de Kohlberg da seguinte maneira:

Nível 1 (Pré-Convencional)

1. Orientação "punição/obediência"
(Como posso evitar a punição?)

2. Orientação autointeresse (ou "hedonismo instrumental")
(O que ganho com isso?)

Nível 2 (Convencional)

3. Acordo interpessoal e conformidade
(Normas sociais)
(Orientação "bom moço"/"boa moça")

4. Orientação "manutenção da ordem social e da autoridade"
(Moralidade "Lei e Ordem")

Nível 3 (Pós-Convencional)

5. Orientação "Contrato Social"

6. Princípios éticos universais
(Consciência dos Princípios)

Nível pré-convencional

O nível pré-convencional de argumentação moral é particularmente comum em crianças, embora os adultos também possam manifestar esse nível de argumentação. Neste nível, o juízo da moralidade da ação é feito com base nas suas consequências diretas. O nível pré-convencional consiste apenas no primeiro e segundo estágios de desenvolvimento moral, e está preocupado apenas com o próprio ser de uma maneira egocêntrica. Alguém com uma moral pré-convencional ainda não adotou ou internalizou as convenções da sociedade sobre o que é certo ou errado, mas, em vez disso, foca-se grandemente em consequências externas que certas ações possam ter.

O estágio 1 é o do castigo e obediência. Neste estágio, a moralidade para a criança consiste em observar literalmente as regras, obedecer à autoridade e evitar o castigo. Por exemplo, uma ação é vista como errada apenas porque aquele que a cometeu foi punido. "Da última vez que fiz tal coisa, apanhei, então não a farei de novo". Quanto pior a punição, pior é visto o ato. O ponto de vista é egocêntrico, o ator não distingue entre os seus interesses e os dos outros, que o ponto de vista dos outros pode ser diferente do seu. Há uma deferência para aqueles vistos como de maior poder ou prestígio.

O estágio 2 é aquele em que a pessoa é movida apenas pelos próprios interesses. O comportamento moral consiste em seguir regras quando forem do interesse imediato do actor e em reconhecer que os outros também têm seus próprios interesses, o que pode justificar uma troca entre atores, integrando interesses recíprocos, mas apenas até ao ponto em que isso serve aos interesses do próprio ator. O ponto de vista inclui, portanto, o de outros indivíduos, numa base instrumental, ocorrendo uma certa descentração, embora mínima. O respeito pelos outros não está baseado em lealdade ou respeito mútuo, mas no sentido de "uma mão lava a outra". A falta de perspectiva do estágio 2 também não pode ser confundida com o estágio 5, pois aqui todas as ações têm o propósito de servir os próprios interesses ou necessidades do próprio indivíduo.

Nível convencional

O nível convencional de argumentação moral é típico de adolescentes e adultos. Aqueles que argumentam de uma maneira convencional julgam a moralidade das ações comparando-as com as visões do mundo e expectativas da sociedade. A moralidade convencional é caracterizada por uma aceitação das convenções sociais a respeito do certo e do errado. Nesse nível um indivíduo obedece a regras e segue as normas da sociedade mesmo quando não há consequências pela obediência ou desobediência. A adesão a regras e convenções é de algum modo rígida, entretanto, a adequação da aplicação de uma regra ou a justiça dela é por vezes (poucas) questionada.

O estágio 3 é o das expectativas interpessoais mútuas, e do conformismo, em que o ser entra na sociedade preenchendo papéis sociais (identidade dos papéis). O correto é atender às expectativas das pessoas de referência, ser um "bom moço", no papel de filho, irmão ou amigo, tendo sido ensinado que há um valor inerente a tal comportamento. O ponto de vista inclui as perspectivas dos outros e sentimentos compartilhados, que têm precedência sobre os interesses individuais. A argumentação do estágio 3 pode julgar a moralidade de uma ação valorando as suas consequências em termos dos relacionamentos de uma pessoa, a qual agora começa a incluir coisas como respeito, gratidão e a "regra de ouro" (reciprocidade das acções). O desejo de manter as regras e a autoridade existe apenas manter esses papéis sociais. As intenções das ações desempenham um papel mais significante na argumentação neste estágio; "eles têm boas intenções…".

O estágio 4 é aquele em que a pessoa se move com base na obediência à autoridade e ordem social. O correto é cumprir o seu dever na sociedade, preservar a ordem social, e manter o bem-estar da sociedade ou do grupo. O ponto de vista é o do sistema ou do grupo social como um todo e considera os interesses individuais dentre desse quadro de referência mais amplo. A argumentação moral no estágio quatro está além da necessidade de aprovação individual manifestada no estágio três; a sociedade deve aprender a transcender necessidades individuais. Um ideal (ou ideais) central frequentemente prescreve o que está certo ou errado. Se uma pessoa viola uma lei, talvez todo a gente esteja legitimada a fazê-lo – portanto, há uma obrigação e um dever em manter leis e regras. A maioria dos membros ativos da sociedade permanece no estágio quatro, onde a moralidade é predominantemente ditada por uma força externa.

Nível pós-convencional

O nível pós-convencional, também conhecido como "nível dos Princípios", consiste nos estágios cinco e seis do desenvolvimento moral. Há uma crescente perceção de que os indivíduos são entes autónomos na sociedade e de que a perspectiva do próprio indivíduo pode tomar precedência sobre a visão da sociedade; eles podem desobedecer a regras inconsistentes com os princípios universais. Essas pessoas vivem de acordo com os seus próprios princípios abstratos sobre o certo e o errado – princípios que tipicamente incluem direitos humanos básicos. Devido ao facto desse nível colocar a "natureza do ser antes dos outros", o comportamento de indivíduos pós-convencionais, especialmente daqueles no estágio seis, podem ser confundido com o daqueles no nível pré-convencional. As pessoas que exibem uma moralidade pós-convencional vêem as regras como necessárias e como mecanismos mutáveis – idealmente, as regras podem ajudar a manter a ordem social geral e a proteger os direitos humanos. As regras não são mandamentos absolutos que devam ser obedecidos sem questionamento, podendo ser desobedecidas ou modificadas com base em justificações universais (caso da "desobediência civil" por exemplo).

O estágio 5 é o dos direitos pré-existentes e do contrato social ou utilidade. A visão de mundo de quem está neste estágio é a de que no mundo existem pessoas de diferentes opiniões, direitos e valores. O correto é apoiar os direitos, valores e contratos jurídicos de uma sociedade, mesmo quando estão em conflito com as normas concretas do grupo. As leis são consideradas como contratos sociais em vez de um mandamento rígido. Aquelas que não promovem o bem-estar geral devem ser modificadas quando necessário para adequar-se ao "bem máximo para o maior número de pessoas" (Princípio da Utilidade). Isso é atingido através da decisão da maioria e do comprometimento inevitável. Muitos dos atos de um governo democrático são baseados no estágio cinco.

O estágio 6 é o dos princípios universais éticos. As leis e acordos sociais só são válidos na medida em que derivam de tais princípios. Assim, quando a lei viola esses princípios, é preciso agir de acordo com eles, mesmo contra a lei que for considerada iníqua (não nos podemos esquecer que o "apartheid", a tortura e a escravatura, entre outras barbaridades, já foram lei). Os princípios em questão são os da igualdade dos seres humanos e o respeito pela sua dignidade como indivíduos, considerados como fins e não enquanto meios, como na filosofia de Immanuel Kant. Existe uma capacidade de se pôr no lugar do outro. O ponto de vista é universalista, transcendendo grupos e sociedades particulares, e baseia se numa ética válida para todos, da qual derivam arranjos e instituições concretas. Os direitos escritos formalmente não são necessários para a ética, mas continuam a sê-lo para o direito e para a política, pois os contratos sociais não são essenciais para a ação moral deontológica. O indivíduo age pelo dever, não pela mera conformidade ou simples conveniência, não porque tal ação é instrumental, esperada, legal, ou foi previamente acordada. Para Kohlberg, raras pessoas atingem este estágio.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Apego (Vinculação)



John Bowlby enfatizou sobre o significado do primeiro relacionamento entre a mãe e a criança, através da chamada teoria do apego (ou vinculação - em inglês: "attachment"), ressaltando a importância do primeiro contato mãe-bebé.
Além dele, Ainsworth fala sobre vínculo afetivo como um laço relativamente durável em que o parceiro é importante como um indivíduo único e não pode ser trocado por nenhum outro. Num vínculo afetivo existe o desejo de manter proximidade com o parceiro. Um apego é uma subvariedade do vínculo emocional em que o sentimento de segurança de uma pessoa está estreitamente ligado ao relacionamento.
Pode definir-se que o relacionamento da criança com o progenitor é um apego, mas o relacionamento do progenitor com ela não é, pois o progenitor não experencia um sentimento maior de segurança na presença do bebé, nem o usa como uma base securizante.
O vínculo dos pais parece depender mais do desenvolvimento da mutualidade do que do contato imediato após o nascimento, estes vínculos surgem gradualmente. Bowlby sugeriu três fases no desenvolvimento do apego do bebé.
■ Orientação e sinalização sem foco - Bowlby pensava que o bebé iniciava a vida com uma série de padrões inatos de comportamento que o orientam em direção aos outros e sinalizam as suas necessidades. Neste estágio, há poucas evidências de apego, porém, as raízes do apego são aqui encontradas. O bebé está a construir expectativas, esquemas, a capacidade de discriminar a mãe e o pai em relação a outras pessoas. As interações fáceis, predizíveis, que fortalecem o vinculo dos pais também formam a base para o apego emergente do bebé.
■ Foco centrado numa ou mais figuras - por volta dos 03 meses de idade, o bebé começa a dirigir os seus comportamentos de apego de modo mais focado. As crianças nesta fase não manifestam nenhuma ansiedade especial por serem separadas do progenitor e nenhum medo de desconhecidos.
■ Comportamento com base segura - segundo Bowlby, o bebé forma um apego genuíno por volta dos 06 meses de idade. Ao mesmo tempo, muda o seu modo dominante de comportamento de apego.
Nem todos os bebés têm uma única figura de apego, mesmo neste ponto tão inicial, mas mesmo esses bebés, quando em stress, normalmente manifestam uma preferência por uma dessas pessoas.
Quando a criança desenvolve um apego claro, por volta dos 06 a 08 meses, também podem aparecer vários comportamentos relacionados. O bebé de 10 meses começa a verificar a expressão da mãe ou do pai antes de decidir se deverá aventurar-se numa nova situação.
Por volta dos 02 ou 03 anos, a maioria dos comportamentos de apego tornou-se menos visível. As crianças dessa idade são suficientemente avançadas em termos cognitivos para compreender quando a mãe explica que vai sair e voltará, de modo que a sua ansiedade de separação diminui.
Os comportamentos de apego não desaparecem completamente. As crianças de 02 anos de idade ainda se querem sentar no colo da mãe ou do pai, ainda procuram ficar próximas quando a mãe retorna depois de ter estado ausente, mas são capazes de explorar cada vez mais situações não-assustadoras ou não-stressantes sem aparente angústia a partir da sua base segura.
Uma mudança ainda maior ocorre por volta dos 04 anos, quando o apego da criança parece mudar em qualidade. Bowlby trata este estágio como parceria de objetivo corrigido, em que o relacionamento não depende totalmente da interação com a proximidade física.
As crianças dessa idade ficam muito menos perturbadas com a separação, mas elas ficam preocupadas se não sabem o que está a acontecer ou não compartilharam o planeamento da situação. É somente nas situações stressantes que vemos nítidos comportamentos de apego.
Para uma criança de 07 ou 08 anos vemos comportamentos de base segura muito menos óbvios, e menos afeto manifesto da criança em relação aos pais nesta faixa etária.
Na terminologia de Bowlby, os bebés têm diferentes modelos funcionais internos dos seus relacionamentos com os pais e outras pessoas significativas. Este modelo interno funcional dos relacionamentos de apego inclui elementos como a confiança (ou falta dela) da criança de que a figura de apego será disponível ou confiável, a sua expectativa de rejeição ou afeição e o seu sentimento de segurança de que o outro é realmente uma base segura para exploração.
Este modelo interno começa a formar-se no final do primeiro ano de vida e torna-se mais complexo e mais firme ao longo dos primeiros 04 ou 05 anos. Por volta dos 05 anos de idade, a maioria das crianças tem um claro modelo interno da mãe (ou outro cuidador), um auto-modelo e um modelo dos relacionamentos. Uma vez formados, esses modelos conformam e explicam as experiências e afetam a memória e a atenção.
Willard Hartup sugere que cada criança precisa de ter experiências em dois tipos bem diferentes de relacionamento: vertical e horizontal. Um relacionamento vertical envolve um apego a uma pessoa com maior poder social ou conhecimento, tal como um progenitor, um professor, ou mesmo um irmão mais velho. Esses relacionamentos são complementares, em vez de recíprocos.
O vinculo pode ser extremamente poderoso em ambas as direções, mas os comportamentos concretos que os dois parceiros demonstram um com o outro não são os mesmos.
Os relacionamentos horizontais são recíprocos e igualitários. Os indivíduos envolvidos, como companheiros da mesma idade, têm igual poder social e o seu comportamento mútuo vem do mesmo repertório.
Hartup salienta que esses dois tipos de relacionamento têm diferentes funções para a criança, e ambos são necessários para que ela desenvolva habilidades sociais efetivas.
Nos relacionamentos verticais a criança cria os seus modelos funcionais internos e aprende habilidades sociais fundamentais. Nos relacionamentos horizontais, a criança pratica o seu comportamento social e adquire habilidades sociais como cooperação, competição e intimidade.
Para Wallon, o ambiente no qual a criança está inserida é o seu recurso básico de desenvolvimento, sendo este um processo de individuação crescente que acontece desde o nascimento, através da interação social.
A atividade da criança é potenciada pelos recursos materiais disponíveis, pelas interações que vivencia com outras pessoas.
Embora muitos princípios do desenvolvimento cognitivo se apliquem à compreensão, tanto do mundo físico como social, as crianças sabem desde muito cedo, que os seres vivos são diferentes dos objetos inanimados, durante os primeiros anos as crianças vão refinando a distinção entre pessoas e objetos.
As teorias delineadas para explicar como a cognição social funciona e como afeta o desenvolvimento individual e social derivaram das teorias cognitivas básicas.
A teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget inspirou grande parte da pesquisa inicial sobre a cognição social em relação aos conceitos e ao raciocínio das crianças. No seu desenvolvimento as pessoas passam qualitativamente por níveis distintos ou estágios que emergem numa ordem invariável, embora em proporções variáveis, em crianças diferentes.
Para Wallon, a dimensão afetiva ocupa um lugar central, tanto na construção da pessoa como na construção do conhecimento. Durante o estágio impulsivo-emocional (primeiro ano de vida), o bebé é totalmente dependente e recebe tudo o que precisa das outras pessoas (mãe, pai, ama, educadora). Para obter a satisfação das suas necessidades, ele age sobre os outros através das suas reações emocionais que são expressas pelo choro, pelo sorriso, pelos gestos. As pessoas próximas interpretam as reações do bebé e agem de acordo com o significado que lhes atribuem: mudam-no de posição, dão-lhe de mamar, acomodam-no para dormir.
A principal relação que o bebé estabelece com o ambiente é de natureza afetiva: é o período emocional em que as reações são afetivas: alegria, surpresa, medo.

Maria Aparecida Oliveira (adaptado)