segunda-feira, 26 de maio de 2008

Capacidade Argumentativa

No contexto de uma sociedade democrática, demais a mais, praticamente "governada" pela opinião, a capacidade de argumentar constitui-se como uma competência fundamental para a vida em sociedade.

Efectivamente a distinção entre o modo de vida democrático e todos os outros, encontra-se fundamentalmente na importância da deliberação em orgãos de carácter colegial que implica um processo de tomada de decisões precedido e, muitas vezes, sucedido de debates. Ora nesses debates a força dos argumentos veio historicamente substituir os argumentos da força, típicos das sociedades não democráticas.

Nas sociedades dirigidas por orgãos que se regem por mecanismos deliberativos as ordens política e jurídica, mas também as questões de natureza eminentemente social como os costumes, a moda, a arte, o desporto e todos os fenómenos de massas, são susceptíveis de debates em que a capacidade de argumentar se revela essencial para a conquista da adesão do maior e mais qualificado número de membros do auditório (por vezes uma e outra condição não são totalmente coincidentes) .

Foi na Grécia Antiga que se começou a levantar a importância do debate e da deliberação colectiva como processo de tomada de decisão para os assuntos de natureza pública, precisamente por ter sido em Atenas, velha e próspera cidade-estado da antiga Grécia, que primeiro se constitui um sistema de governo com instituições democráticas em que os cidadãos e ápenas estes, se reuniam em assembleias e tribunais e decidiam dos negócios públicos.

Surgiram então profissionais da formação para o debate, que os cidadãos abastados contratavam para que treinassem os seus filhos nessas artes; esses formadores ficaram conhecidos por "Sofistas" e a técnica em que eram especialistas é a Retórica ou arte de argumentar.

O objectivo da Retórica era e é, persuadir a audiência para que esta apoie determinados pontos de vista em detrimento de outros e para isso chegam-se muitas vezes a utilizar técnicas de manipulação que passam muitas vezes pela adulação do auditório, ou seja, diz-se ao público aquilo que ele quer ouvir. Ora, isto põe geralmente em causa os princípios da seriedade, da verdade e do bem comum, que deverá ser o objectivo final de toda a decisão em termos de políticas públicas.

Para ilustrar o tema deixem-me contar-lhes uma pequena história :

Um camponês acabara de adquirir uma bezerra, mas tendo tido oportunidade de emigrar temporariamente para França, pediu a um vizinho que lhe ficasse com a vitela e assim foi. Durante dois anos consecutivos o nosso emigrante esteve lá fora e não deu novas, nem mandadas e o que cá ficou foi tratando e engordando a bezerra que entretanto se tornou numa enorme vaca leiteira, bem tratada e muito produtiva.

Ao fim dos tais dois anos sem dar notícias, o emigrante regressa à terra natal e vai ter com o vizinho de quem reclama a vaca, o vizinho recusa-se a entregar-lha sem tornas, alegando que durante dois anos contribuira sozinho para o sustento e crescimento da vaca e isso tivera custos, portanto só devolveria o animal contra uma indemnização; o outro recusou-se a dar-lha e o caso foi para tribunal.

Acontece que na vila sede do concelho só havia um advogado (deve ter sido há muito tempo), pelo que num dia foi lá o emigrante e o advogado garantiu-lhe:

- Esteja descansado porque a vaca é sua !
O outro ao ser notificado de que uma queixa relativa à devolução da vaca corria contra ele, decidiu recorrer ao tal advogado que era o único que existia e o causídico à saída do consultório garantiu-lhe peremptoriamente :

-Esteja absolutamente tranquilo que a vaca é, com toda a certeza, sua !

Um jovem estagiário de advocacia que tinha presenciado as dua consultas, após o segundo cliente ter saído do consultório diz ao patrono :

- Então o senhor doutor disse aos dois litigantes a mesma coisa ! Mas de quem vai ser a vaca afinal ?

Aí o velho advogado respondeu :

- Oh homem cale-se que a vaca é nossa !!!

Saber argumentar é mesmo muito importante !









Programação - Projectos pessoais e familiares

Pensar prospectivamente a vida pessoal é uma competência que cada um de nós deve desenvolver em ordem a uma existência mais organizada e racionalizada num contexto de risco e incerteza como é o actual. Se bem que não possamos ter certezas absolutas a respeito de muitas das variáveis que constituem a realidade de que nós próprios somos parte integrante, podemos e sobretudo devemos, antecipar racionalmente os cenários prováveis da nossa realidade a curto, médio e longo prazo.
Esses cenários envolvem a nossa vida pessoal e necessariamente a de todos aqueles que connosco mais directamente se relacionam, principalmente os membros da nossa própria família.
Pensar prospectivamente significa pensar para a frente, antecipar cenários possíveis e jogar com probabilidades, ou seja programar; ser capaz de conceber faseadamente um conjunto de objectivos e em função dos recursos disponíveis, delinear estratégias em ordem à sua consecução.
Se por exemplo quisermos mudar de casa teremos que nos certificar se teremos as condições necessárias para o fazer de vários pontos de vista, principalmente do financeiro. Obviamente que esse desejo deve decorrer de uma necessidade e a ela devem corresponder os meios que justifiquem e "cubram" o esforço a dispender. Para isso será necessário proceder a um diagnóstico, a uma análise, da situação em termos das razões que nos levam a querer mudar e da verificação de que justificam um novo e tão vultuoso investimento e depois, da inventariação das condições futuras de que permitam suportá-lo.
Como esta situação que pode servir de exemplo, muitas mais, para não dizer todas são planificáveis e optimizáveis em ordem a uma consecução mais plena e proveitosa das metas a que nos propomos ao longo da vida.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Mediação Intercultural

A Mediação Intercultural impõe-se como necessidade de fazer fluir a comunicação e logo, o entendimento ( Comunicar, quer dizer isso mesmo-"pôr em comum"), em sociedades multiculturais que pretendam atingir a interculturalidade, condição necessária para a inserção social de todas as comunidades étnico-culturais específicas na comunidade global.
Por vezes e numa situação inicial ,as barreiras constituídas pelo preconceito e pelo estereótipo que vulgarmente enquadram os fenómenos de aproximação de comunidades de proveniências diversas tornam difícil um entendimento imediato, sendo de toda a conveniência o recurso à mediação.
Esta solução de aproximação consiste na utilização de agentes de comunicação e ligação que permitem, pelo profundo conhecimento da realidade dessas comunidades o estabelecimento dos contactos básicos essenciais às primeiras aproximações como quem "quebra o gelo" sem o derreter.
O mediador intercultural funciona assim como um elemento chave para o estabelecimento de um "protocolo" que possibilita a comunicação através do domínio dos códigos cujo desconhecimento é factor de estranheza, afastamento e conflitualidade.

Cidadania : Globalização (Factores e Dinâmicas)

Os factores e as dinâmicas da Globalização são predomiminantemente de carácter económico e financeiro,mas também cultural.

A dinâmica desta fase da globaliização assenta fundamentalmente na livre circulação de mercadorias e na sua livre transacção , no fundo a velha aspiração do comércio livre (Portugal antes de aderir à então CEE, fez parte de uma outra organização europeia, a EFTA-European Free Trade Association, cuja finalidade era a criação de uma zona de comércio livre entre países europeus, sem outros objectivos políticos;tanto que Portugal quando aderiu era governado por um regime ditatorial que só caíu em Abril de 74). Mas na sua actual fase a globalização não se esgota no comércio , é a própria produção e a mão-de obra necessária que podem ser globalmente determinados. Essa determinação tem muitas por factor base o custo do trabalho se bem que esse factor não seja o único, claro que o nível de especialização também é fundamental.

Isto deve-se ao carácter transnacional da organização económica em que grandes empresas ,as chamadas multinacionais, operam à escala planetária seccionando as suas dependências segundo factores de competitividade. Assim é vulgar uma empresa de automóveis por exemplo, ter o centro máximo de decisão na Alemanha, mas as fábricas em Espanha, Portugal ou na Roménia, devido aos custos da mão-de obra serem mais vantajosos (para a empresa claro está !) e ter centros de software na Índia ou na Coreia por questões de especialização local nesse sector para além do reduzido custo local do trabalho especializado quando comparado com o do país sede.

O problema fundamental da actual fase da globalização é que se internacionalizam a produção e a circulação de bens e serviços , mas não se faz o mesmo em relação às condições políticas e sociais o que origina, em relação à fase anterior do Sistema Económico Internacional que assentava no proteccionismo de cada Estado da sua própria economia , através de mecanismos vários como as barreiras alfandegárias ; claros recuos na regulamentação laboral,Como por exemplo nos países ditos desenvolvidos, sem grandes ganhos no desenvolvimento dos outros, todos deixados à voracidade do "mercado" e da sua consequente "lei da selva".
Também factores de ordem cultural integram o processo de globalização, um Mercado Único necessita de uma Língua Franca e essa parece ter sido encontrada no Inglês , versão internacional ; tambem o "american way of life " se tornou no objectivo de vida padrão desejado internacionalmente. Como é também essencial ao processo a instantaneidade das comunicações possibilitado pelas TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) eis porque são tão importantes num mundo globalizado as aprendizagens do Inglês e da Informática.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

O "novo" ECD

Estatuto da Carreira Docente:
ou de como se combinam a Ficção Científica, a Revolução Cultural Chinesa e a “Metamorfose” de Kafka


O novo Estatuto da Carreira Docente que é na globalidade um documento medíocre e penalizador dos profissionais da educação, representando um claro retrocesso nas relações laborais em Portugal com um sector de actividade, os professores, a verem-se subitamente transformados no único bode expiatório do alegado falhanço de todo um Sistema Educativo em permanente instabilidade, ao sabor de ventos e marés de variadíssimas etiologias, sem que nunca se consiga a tranquilidade necessária à prossecução dos seus objectivos e sem que as verdadeiras responsabilidades quanto a isso tenham sido alguma vez, de facto, apuradas e veja-se a lista de inúmeras e recorrentes peripécias relativas a Programas, Exames, Concursos, etc., etc., etc.. No entanto, há situações particulares da sua regulamentação que não apenas raiam, mas penetram fortemente na esfera do absurdo. Tudo daria vontade de rir se não tivesse gravíssimas consequências na vida de milhares e milhares de cidadãos que os professores também são, apesar dessa condição lhes ter vindo a ser, na prática, retirada um pouco todos os dias.
Refiro-me concretamente à separação da Carreira entre duas categorias hierarquizadas, a de Professor e a de Professor Titular. Para além da bizarria do título, algo incongruente com a feição republicana do Estado, (que isto da linguagem também manifesta latências inconfessadas). A proposta de Concurso para acesso a essa nova categoria apresentada pelo Ministério da Educação em grelha com itens pontuáveis, só pode ter sido concebida sob três influências estilísticas concomitantes:

- Primeiro: Ficção Científica – de facto, é preciso lembrarmo-nos das novelas dos velhos mestres deste género Philip K. Dick, Simak, Heinlein, Le Guinn e outros, para que possamos entender a natureza do buraco negro legislativo que absorve e “engole” por completo, pelo menos, 30 anos de existência nacional, em que houve leis que legitimamente estiveram em vigor e foram da responsabilidade de órgãos de soberania legitimamente constituídos, pois Portugal vive desde 1976 sob um regime constitucional e tem tido Assembleias da República eleitas, Governos nela sufragados, Presidentes da República eleitos e empossados, Tribunal Constitucional em exercício e, consequentemente, equipas governativas na Educação, com Ministros, Secretários de Estado etc., que, ao que parece, nunca terão existido, pois as propostas de avaliação do desempenho dos professores dos 8º, 9º e 10º escalões ( aqueles que têm mais do que 18 anos de serviço, alguns muito mais), elide completamente o tempo anterior a 1999-2000, como se Portugal se tivesse constituído agora e as suas remotas raízes remontassem de há 8 anos atrás.
Pergunta-se se terão de facto existido todos os anos anteriores, ou terá sido apenas uma ilusão induzida por algum génio maligno, daqueles a que Descartes faz referência.

- Segundo: Revolução Cultural Chinesa – até ao presente este tenebroso episódio da história contemporânea tem sido o paradigma da tábua rasa acima referida e, até ao presente Estatuto da Carreira Docente, terá sido a única situação em que e para usar a linguagem metafórica predilecta da equipa ministerial, “ generais”, vão passar da noite para o dia a “recrutas” e
“ catedráticos”, a “caloiros”, tal vai ser o absurdo da situação que irá conduzir a que milhares e milhares de professores de uma geração que deu Tudo ao Sistema e nas condições que se conhecem, com a casa permanentemente às costas, etc., etc., venham a ser objectivamente despromovidos, pela aplicação de critérios retroactivos completamente desconhecidos e impossíveis de conhecer a não ser para quem é bruxo ou bruxa . Num estado de direito como de Portugal se diz que é, o princípio da boa fé deve nortear a prática das instituições públicas e são imorais e anti‑jurídicas as práticas legislativas que o contrariem, o Estado deve ser uma pessoa de bem e, por isso, os seus representantes devem portar-se como tal . É então absurdo que dezenas de milhares de profissionais venham a ser avaliados e classificados por critérios que não poderiam conhecer pois, pura e simplesmente, NÃO EXISTIAM e os que existiam foram, pela esmagadora maioria, plenamente cumpridos, como não poderia deixar de ser. Lembremo-nos que foram as instituições (Ministros que propuseram, Governos que aprovaram, Assembleias da República que legislaram, Presidentes da República que promulgaram e Tribunais Constitucionais que os verificaram! ) e não terão sido, certamente, os professores que os estabeleceram. Portugal não esteve propriamente “ sem rei, nem roque” nos últimos 30 anos e a ter estado, haverá toda uma cadeia de responsabilidades e de legitimidade constitucional e democrática que, na prática, está a ser completamente descartada com a aparente complacência dos órgãos de soberania co‑responsáveis.
Pergunta-se : Será que houve alguma ruptura constitucional? Uma Revolução, um Golpe de Estado ou qualquer coisa desse género? Não tendo havido, pelo menos, de maneira explícita, não se entende como se poderão mudar as regras estruturais a meio de tão longo jogo. E repare-se que não estou a referir-me a expectativas, como a idade de reforma ou assim; estou a referir-me a situações concretas e definidas estatutariamente que agora são subvertidas de forma perfeitamente inusitada e casuística, sem qualquer fundamento de natureza legal que, pelo menos, se coadune com a representação que em geral os cidadãos devem ter de um Estado de Direito; de facto, só personagens como as do famigerado
“ Bando dos Quatro” e quejandos, poderiam ter congeminado esta situação.

- Terceiro: a “Metamorfose” de Kafka: Franz Kafka é um dos maiores génios do absurdo realista e concerteza que muitos de nós se recordam da sua novela “ Metamorfose”, em que o personagem principal acorda transformado num insecto tipo carocha que se encontra deitado de barriga para cima e não consegue virar-se. Eis o que está no presente transe a acontecer aos professores : subitamente e numa situação nada ficcional
( tal como as de Kafka , aliás), vêm-se confrontados com o pavor de um conjunto de medidas que não podiam sequer ter adivinhado, e que alteram substancialmente para pior as condições do seu desempenho, da sua carreira, em suma, da sua VIDA.
Uma palavra importante para os sindicatos: se esta disposição terrorista do Ministério da Educação passar, é bom que pensem seriamente em reconverter-se em outra coisa qualquer e mudar de actividade, pois a sua existência deixará de fazer qualquer sentido sério e passará a ser meramente folclórica; nunca desde que me conheço a série negra de derrotas foi de tão aterradora dimensão perante a impotência do movimento sindical de que é exemplo o recente conselho dado por um dirigente da FENPROF dos mais activos e habitualmente combativos, e refiro-me a Mário Nogueira, que declarou à Comunicação Social que os professores dos referidos escalões deveriam concorrer todos a Titulares para “ inundar o Ministério de candidaturas!” ; se isto é resposta, e se ficarmos por aqui, para além das já tradicionais e pelos vistos infrutíferas “inundações de rua” (manifestações), greves, abaixo-assinados e algum folclorismo carnavalesco relativo a situações que não são, de modo algum, para brincadeiras, mais valerá dizer como a minha avó: - “ Está bem, sim Rosa!!! “

Post Scriptum 1: os Sindicatos, nomeadamente os da FENPROF como o SPGL, têm dezenas de milhares de sócios a quem são descontadas automaticamente quotas de valor relevante e possuem relativamente significativos Serviços Jurídicos; Ora, sendo estas medidas e estes critérios de legalidade e de constitucionalidade mais do que duvidosa, pois se trata de disposições com efectiva retroactividade que não respeitam o princípio da boa fé, para além da sua flagrante imoralidade , sugiro que urgentemente os encarreguem da contestação em todas as instâncias possíveis desta total e completa iniquidade legislativa.

Post Scriptum 2: Esta questão do E.C.D. e da sua regulamentação está inquinada desde o princípio, como penso ter demonstrado em relação aos critérios para acesso à Carreira de Professor Titular uma vez que os já tornados públicos não podiam ser do conhecimento dos professores, há 30, há 20, há 10 anos ou até mesmo, há seis meses, visto que a legislação em vigor sob a qual foi contratualizado o exercício profissional dos docentes não os incluía, nem sequer os indiciava; por aí se demonstra à saciedade que não se pode ser avaliado ou classificado por critérios que não existiam .
A reiterada, obstinada e obsessiva insistência da equipa dirigente do M.E. nesta aberrante monstruosidade, demonstra uma por demais evidente falta de cultura democrática e até, de Cultura “tout court”. A Sr.ª Ministra que é socióloga de formação, apesar de o não parecer e costuma acusar as Escolas de “anomia”, está a contribuir fortemente para que a anomia total se instale. Costuma também a Sr.ª Ministra “ encher a boca” com a necessidade absoluta de promover “os professores que dão aulas” e, se por absurdo, aceitássemos discutir aberrações como a de se classificarem pessoas pelo seu desempenho pretérito baseado em critérios então inexistentes, ainda assim teríamos que denunciar a incongruência entre o discurso da Sr.ª Ministra ( o tal dos “ professores que dão aulas”) e o texto da “ proposta” que vem apresentar para o acesso à categoria de Professor Titular, onde conta tudo, menos “ dar aulas”, ou seja, todos os cargos de natureza burocrática são pontuáveis e a prática lectiva fica a zero ( zero mesmo !...). Ainda por cima, sabendo como sabe quem está no “métier” que os cargos que se pretende valorizar são desempenhados, em regra, através de um sistema de cooptação só acessível a poucos e invariavelmente os mesmos dentro de cada Escola, o que justifica o provérbio de que “mais vale cair em graça do que ser engraçado” e o mais engraçado de tudo é que ainda que assim não fosse e devendo ser os tais cargos de desempenho rotativo, certamente que para que todos os desempenhassem levaria mais do que os 7 anos que se pretende que contem para o Concurso, o que implica que seja literalmente
“ deitado ao lixo” todo o tempo e Carreira em que os docentes fizeram tudo o que lhes foi exigido e em inúmeros casos, muito mais. É claro que só se fossemos ingénuos acreditaríamos na bondade destas disposições e é claro também, que se trata de uma forma grosseira de limitar o acesso da maioria dos professores a um novo topo de Carreira e de despromover, cinicamente, até os que já lá se encontravam.
Trata-se obviamente de “ um fato por medida” para que sirva a quem já se encontra nos órgãos dirigentes das Escolas e a quem em seu redor orbita e só assim se explica o entusiasmo do cavalheiro que até nem se esqueceu de levar uma gravata cor-de-rosa para o programa “Prós e Prós” sobre Educação com que a “independente” RTP nos brindou há uns tempos.

Post Scriptum 3: É óbvio que este Governo utiliza, ainda que de forma canhestra, apesar de dever ter encargos vultuosos para remunerar “ spin doctors”, as velhas e relhas tácticas do “ salame” e da “gangrena”.
A primeira consiste em cortar a sociedade às fatias e tentar “ comê-las” uma por uma e veja-se: começou nos juízes e nos seus “ privilégios”, passou pelos polícias, deu a volta aos militares, derivou para os médicos e enfermeiros para acabar e se fixar nos professores, “esses malandros!”
A segunda consiste em diagnosticar “gangrena” que implique a amputação da perna, por exemplo, e perante os rogos aflitivos do “ doente” chegar à conclusão que afinal, é só preciso “ amputar o pé”, ao que o “doente” aliviado, irá exclamar: “Obrigado, Senhor Doutor! ” Só que como se costuma dizer, o livro que andam a ler não foram eles que o escreveram e a tradução que consultaram é péssima; pensam ter inventado a pólvora mas de facto foram os chineses a quem até, inclusivamente, já tentaram vender mão de obra barata; talvez estejam a pensar nos professores que vão passar a “disponíveis”!

Post Scriptum 4: Por falar em Bando dos Quatro, na China há “um país, dois sistemas”. Em Portugal, será “um país, três sistemas”: uma vez que há um Estatuto da Carreira Docente para o Continente, este que agora foi promulgado e outros dois, um para cada Região Autónoma. Um para a Madeira, ligeira mas “benevolamente” revisto e outro para os Açores, que é precisamente o mesmo que antes vigorava para todo o território nacional.




Março de 2007

António José Carvalho Ferreira, Professor (desde 1976-77),
Sócio do SPGL (desde 1977),
Membro da Assembleia Municipal do Barreiro (desde 1989),
Co-fundador da Secção do Barreiro do Partido Socialista (em 29 de Abril de 1974)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Humanos: Conceito e Realidade

A leitura da obra de John Gray " Sobre Humanos e Outros Animais" ( Lx. Fev/ 07), Trad. Port. por Miguel Serras Pereira Ed. Lua de Papel ( Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals), constitui um dos mais inquietantes e, na minha opinião, aterradores libelos contra o humanismo nas suas mais variadas versões e até disfarces.
Na verdade, não há quase ninguém que seja poupado pelo autor, incluíndo Nietzsche e Heidegger ( por ele considerados imagine-se, humanistas, ainda que em desespero de causa). Um dos poucos que ainda se "safa" é Schopenhauer afinal o grande presciente que conseguiu entrever o descalabro do humanismo por ter sido um dos primeiros intelectuais europeus versado em pensamento oriental ( budismo, taoísmo, xintoísmo) e assim , teria compreendido as bases erróneas em que este assenta.
Socorre-se ainda da Hipótese Gaia de Lovelock e Margulis que considera a Terra um todo orgânico e auto-regulado, de tal modo que a humanidade não passaria de uma "praga" ( a primatemaia disseminada) que de modo algum terá capacidade possível para destruír o seu hospedeiro ( a Terra) pelo contrário, esta terá toda a capacidade para se curar dessa doença, através do decréscimo populacional que seria uma forma de controlo de pragas.
Esse decréscimo populacional pode ser auto-induzido de várias maneiras, a mais comum será o stress e não me refiro apenas ao stress psicológico, que é uma mera manifestação do stress tout-court, que consiste num enfraquecimento da vitalidade desencadeado pelo excesso populacional. Assim e apesar do autor também criticar Hegel, o ecossistema Terra seria dominado por uma espécie de Astúcia da Razão em que sintomas considerados como artificiais, o aquecimento global por exemplo, não passam de instrumentos de auto-regulação natural, que põe o homem com comportamentos auto-destrutivos ao nível do suicídio das baleias ou da agressividade dos ratos em circunstâncias de penúria de espaço vital ( mas isso já os teóricos neo-liberais da gestão andam a dizer há anos, vide o best-seller " Quem Mexeu no Meu Queijo ?").
( Leiam também a brilhante resposta: " Fui Eu Que Mexi no teu Queijo!")
No fundo, nada há na humanidade que seja própria ou exclusivamente humano, como os humanistas em geral gostam de pensar e que afinal não passaria de um whishfull thinking. Esta ideia até que nem é nova, basta que nos lembremos do Desmond Morris do fim dos anos 60 e dos seus " Macaco Nu" e " Zoo Humano" , até aos mais recentes socio-biologistas que se encarniçam na dura tarefa de mandar o Edgar Morin, entre outros, " às malvas", ou como dizia a minha avó, muito recentemente falecida " à mulher da fava, enquanto a ervilha não enche". Por isso, não há brechas nem fendas que resistam e a cultura é uma mera manifestação da natureza, sendo Nova York tão natural como a Amazónia ( imagino que esta ideia terá muitos detractores) e a internet tão natural como as teias de aranha ( esta, imagino, já será em certos ambientes, mais simpática).
A base oracular de Gray é uma espécie de simbiose entre a biologia ecossistémica heterodoxa ( Lovelock/Margulis), um darwinismo proclamado como não antropocêntrico, uma vez que o autor acusa o darwinismo ortodoxo de o ser, e uma influência filosófica orientalista( zen-taoísta) e schopenhaueriana.
Por falar em Schopenhauer, passemos do hardware ao software, ou seja, do real à representação: aqui, também o autor, apesar de criticar o Kant da moral, rende homenagem ao Kant da gnosiologia aliás, como fez Schopenhauer - afinal, o real conhecido será, certamente, um real representado; só que Gray neste pequeno livro vai muito mais longe ( qual Berkeley qual quê !),uma vez que a realidade em si, pode perfeitamente não passar de uma ilusão e aqui o erro de Descartes teria sido realmente enorme e não aquele que Damásio identifica.
Uma outra personalidade poupada é David Hume por ter considerado o real empírico o único, e ainda assim, provisório, ou seja, um real meramente psicológico - o que acordou o homem de Königsberg do seu sono dogmático, em que ele terá caído de novo, talvez pela dimensão utópica de uma Paz Perpétua que o douto Cerqueira não estaria sozinho ao considerar como antecâmara do " eterno descanso".
Portanto, senhoras e senhores, caríssimos colegas: nem sujeito, nem indivíduo, nem humanidade, nem nada que se pareça com especificidade de qualquer tipo, apenas uma estratégia desenhada pelas bactérias de que cada um de nós e todos somos meras colónias, por elas desenhada há muitos milhões de anos.
Confesso que ao ler esta obra me apeteceu saír de gatas e de folha de alface na boca, para me ir juntar à colmeia de térmitas, que afinal de contas é o que todos somos: o mais temível dos predadores; e lá nisso o homem tem razão.
Também me apeteceu escrever a " Metamorfose" ao contrário, como uma espécie de Kafka dos insectos.
E não pude deixar de reflectir nas palavras de Hannah Arendt sobre o behaviorismo: " o problema não é que esteja errado, o problema é que possa estar certo".
Post Scriptum: " come chocolates, pequena, come chocolates".

António José Ferreira

terça-feira, 15 de maio de 2007

Nietzsche: A Origem da Tragédia (análise temática)

Nietzsche, escritor impulsivo, inspirado e de um fulgor criativo até ao frenesi não se preocupou muito, na sua obra, com delimitações temáticas de tipo arquitectónico. No entanto, se repararmos com um pouco de atenção nos 25 capítulos da Origem da Tragédia, verificaremos que eles se podem agrupar em torno de três temas essenciais, sem que no entanto, essa divisão seja absolutamente estanque:
Do capítulo 1 ao capítulo 9, o tema predominante é a dialéctica Apolo-Diónisos.
Do capítulo 10 ao capítulo 19, o tema predominante é o socratismo estético.
Do capítulo 20 ao capítulo 25, o tema predominante é o regresso de Diónisos e a restauração da aliança.
O primeiro tema gira em torno da caracterização dos dois génios tutelares da estética e da civilização trágicas: Apolo como espírito luminescente da aparência que torna possível a visão transformada ( e por isso suportável) da essência dionisíaca do real, dessa natureza bruta e cruel, pletórica que o socratismo haveria de tornar idílica.
O segundo tema gira em torno da conspiração socrática,bem urdida e melhor sucedida, para derrubar a civilização do trágico e substitui-la por um admirável mundo novo que começa no retórico "só sei que nada sei", se desenvolve no délfico " conhece-te a ti mesmo" e decorre numa infinita mobilização para o nada e é este o sentido nietzschiano do nihilismo.
O terceiro tema gira em torno da utopia nietzschiana do "retorno ao trágico", consolidado no abraço fraternal dos dois velhos adversários de que vê prenúncios na restauração da " pátria mítica" - esse heimat, tão fulgurantemente presente no drama musical wagneriano.
Dissemos " utopia" do retorno ao trágico mas o poder profético de Nietzsche não deixou espaço para uma alternativa outra, pois quer se retorne ao trágico quer não, "trágico" parecerá sempre o resultado.